Os criadores


 

“COM AS NOSSAS MÃOS

NÃO HÁ NENHUM CAMINHO TRANQUILIZADOR À NOSSA ESPERA. SE O QUEREMOS, TEREMOS DE CONSTRUÍ-LO COM AS NOSSAS MÃOS”.[1]


O espetáculo teatral “A Viagem do Elefante” não vai ficar pelos caminhos da digressão de 2013. Não admitiríamos agrilhoá-lo só neste tempo e espaços. Voaremos, tal como o sonhámos, por outros itinerários (cidades e aldeias) onde queiram receber a nossa paquidérmica presença… partindo sempre de Tondela para cidades e aldeias portuguesas. De Valladolid a Rosas, passando por Génova, Pádua, Piacenza, Trento, Brassanone, Innsbruck até Viena de Áustria, sem esquecer na viagem Azinhaga (Freguesia onde nasceu José Saramago), Lanzarote e mesmo Asenela (Trás-os-Montes) com os seus 10 habitantes… e todos os locais multiculturais dum Caminho de Salomão, “universal, por ser o local sem paredes”[2].

Loucos de encantamentos, guiados por Subhro, o nosso anti-herói, zeloso tratador indiano do elefante Salomão, resistiremos a que nos mudem o nome para “Fritz”, continuando a indignarmo-nos porque, aprendemos com o narrador de “A Viagem do Elefante” quefelizmente, graças à inesgotável generosidade da imaginação, cá vamos suprindo as faltas, preenchendo as lacunas o melhor que se pode, rompendo passagens em becos sem saída e que sem saída irão continuar, inventando chaves para abrir portas órfãs de fechadura ou que nunca a tiveram”.

Preparem-se para a viagem e aceitem o desejo que Pilar del Río nos transmitiu e que partilhamos inteiramente: 

Ver o Elefante [espetáculo] tem que ser um acontecimento das vidas das pessoas, como no conto o foi para os aldeãos que saíam no caminho. Sem lhes importar os rigores climatológicos. Espero que nossos antepassados não tenham sido mais ativos, curiosos e generosos que nós próprios.

Também as canções criadas por Luis Pastor têm por base poemas de José Saramago. A poética assenta como uma luva às necessidades das cenas, como se o escritor talhasse a sua poética às personagens e ações teatrais que desejámos vestir. No teatro épico, as canções marcam tempos e lugares do espetáculo. Celebram o trabalho interpretativo dos atores que a cantam. Os músicos são sujeitos ativos na função, com atitudes em relação aos acontecimentos narrados, interrompendo e prolongando com canções os acontecimentos, os diálogos e os momentos narrativos em que os atores interagem com o público.

A conceção da cenografia estabelece-se numa visão que aproxime o espaço de representação com o público, possibilitando que ele integre o mais possível cada uma das cenas. O público é o prolongamento natural dos personagens coletivos: os populares que se despedem da caravana que parte de Lisboa com Salomão rumo a Viena; os habitantes da aldeia que se surpreendem pela passagem do elefante; o povo que aclama a chegada dos exércitos em Castelo Rodrigo; os espanhóis que aclamam a entrada em Valladolid; os peregrinos que, em Pádua, esperam o ajoelhar milagroso, bem como os austríacos que aplaudem e logo olvidam o elefante.

O conceito espacial não se circunscreve no movimentar do engenho cénico (elefante) que, tal como os atores, é personagem com vida. Os adereços são prolongamento corporal de quem atua. Procura-se que a gestão do olhar, a circulação dos espectadores e os dispositivos cenográficos incorporem e transformem os espaços para as múltiplas perceções da narrativa. Os mecanismos de cena valorizam estética e poeticamente a obra teatral. Ampliam a semiótica de descodificações plurais da encenação, servindo com eficiência as interpretações.   

O processo de construção envolve os atores que partilham com obreiros e técnicos os segredos das soluções. A escultura do elefante, de Nico Nubiola, é irmã siamesa do estudo cenográfico global que selecionou a configuração, os materiais, os processos imaginativos de dar vida ao elefante. A pele de Salomão é revestida com vime. A madeira e o bambu moldam-se em simbologias com cheiro a terra.

Os espaços adotam a arquitetura das praças e ruas que perfilham o recontar da história. O palácio do Arquiduque da Áustria coopta a varanda da casa já existente. A casa do cura é temporariamente ocupada por uma família local. A fachada da igreja de cada localidade é emprestada a Pádua…

A cenografia estabelece transformações sucessivas pelos dispositivos cénicos. A luz ganha atmosferas multifacetadas que amplificam o misterioso, o divino, a intempérie, a poética no seu sentido mais etéreo.

Os figurinos, de Rafaela Mapril, são estudados para a desmultiplicação dos personagens, num faz de conta que, mais do que corresponder à época, sublinha os seus gestos e comportamentos na narrativa. De Lisboa a Viena, eles ganham sinais que transformam os atores e as numerosas personagens coletivas que participam em cada localidade.

É o edifício teatral, composto pelo cruzamento das várias disciplinas artísticas a servirem a interpretação que sustenta e credibiliza a narrativa, que enfatiza o sentido coletivo do projeto. Cada um sabe da complexidade entre o que se sonha e a capacidade de o tornar real. A utopia comanda o processo criativo, sendo a partilha, o espírito de grupo e a ousadia imaginativa, os destinos mais compensadores de quem neles investe o melhor de si.

[1] “José Saramago nas Suas Palavras”, O Estado de S. Paulo, São Paulo, 20 de Março de 2004

[2] Miguel Torga , in "Traço de União", 2ª. ed. revista, Coimbra, s/d (1969), p. 69



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