O elefante Salomão já vive no castelo de Sortelha

Nesta 3ª feira, encontro insólito de D. João III com D. Luis da Silveira permite que o Trigo Limpo teatro ACERT realize com o seu acordo “A Viagem do Elefante”

 

— Foi com agrado que recebi D. João III nesta 3ª feira e lhe confessei a minha admiração pela ousadia de querer desempenhar um personagem no espetáculo “A Viagem do Elefante” — este foi um desabafo proferido por D. Luís da Silveira numa esplanada do bar “Boas-Vindas”, enquanto bebia minis acompanhadas de presunto e queijo da serra.


— Com a chegada do elefante Salomão até o tempo recua — diz um habitante sortelhense (“lagartixo”), admirado pela insólita visita daquele que, no século XVI, recebeu de D. João III (1521-1557) o título de Conde de Sortelha — já cá não punha os pés há quase 500 anos e a gente cá se foi governando sozinha. Agora ter o D. João III a fazer teatro é coisa de espantar. No Sábado, vamos ver como ele se safa…

D. João III (o próprio) tem ensaiado afincadamente desde 3ª feira, não deixando por mãos alheias de ator do Trigo Limpo teatro ACERT o personagem que, no conto de José Saramago, o retrata na oferta que fez do elefante Salomão ao seu primo Maximiliano da Áustria.

A equipa do Trigo Limpo teatro ACERT ensaia com o monarca, o elefante e a população local. O grupo vive nas casas acolhedoras das encostas do castelo e trabalha entusiasticamente para que “A Viagem do Elefante” aconteça na noite de Sábado, no Largo do Corro. As casas ganham novos habitantes e geografias. Uma varanda situa-se em Lisboa. Outra, em Valadollid e em Viena…

São dezenas de participantes locais que irão contracenar com D. João III, chegado propositadamente do século XVI para mostrar seu talento teatral no castelo de que foi proprietário.

É assim que a viagem no tempo ultrapassa a ficção e José Saramago é celebrado pelo engenho de uma narrativa singular que origina uma singular produção de teatro de rua de 2013 que irá percorrer mais países em 2014.

Tudo é mágico neste percurso pelo interior do país. Milhares de espectadores já assistiram à “Viagem”. Centenas de participantes de cada comunidade foram protagonistas do espetáculo que exige seu talento.

Os desejos apaixonados de Pilar del Río, vão marcando afetivamente a aventura: “(…) Com um elefante tão grande como os sonhos de Saramago, com o mesmo ânimo e a mesma paixão porque para suster o mundo são necessários projectos que nos mostrem humanos e criadores, artífices de uma vida diferente daquela a que nos querem prender como se fosse uma condenação. 
O elefante, a sua gente, os seus fazedores e amigos salvar-nos-ão do tédio da desumanidade e fá-lo-ão com os melhores instrumentos: abrindo caminho com música e literatura, com palavras, com a imprescindível colaboração e a necessária amizade (…)”.