Aguiar da Beira: Quanto mais acima maior é o salto

"Só mais uma oh da bóina!". O pai do Polegar liberta-se eufórico e hoje existe o perigo de contaminação cénica ai ai, e isso muda o mundo para sermos todos palhaços. Que bom seria essa ameaça não nuclear se concretizar. Ser-se alegre não é coisa mortalícia meus amigos.

Carapuços, gorros, polares e quem sabe se a lua está no quarto crescente ou se aqui, em Aguiar da Beira onde o arrefecimento nocturno marca nova vida no regresso de O Pequeno Grande Polegar, quem sabe se aqui se vai descobrir a estrela que nos faça brilhar um filho por dentro?

E no segundo dia do ensaio geral no Largo da Feira, onde celebramos o teatro às habituais 21h30, vê-se a lua amarela lá no alto com o vento das serra entre Moimenta da Beira, Sernancelhe ou Trancoso. Nem precisam dizer nada se não forem ver, são como as pedras com quem se fala... no caso, esperamos que quem olha este alerta não seja a pedra ausência.

Conclusões!

Hoje estão de volta as personagens e o fogo de artifício, as lembranças de peixes ao invés da corrente, um caixão que dá vida a um funeral e o filho que quer ficar mais velho que o pai. A brincar a brincar, de criança em adulto esta peça exorciza o sofrimento, tendo até em conta que as estrelas já foram gastas para pagar tristezas, diz o Vagalume. Esperem lá... provavelmente o sofrimento existe para que a alegria se sinta mais. Ah sim, este Polegar começa numa angústia cantada e acaba em... uops, acaba como o público quer, vão ver que é assim.

O menino cortiça, o gigante, o bebé, a marioneta, enfim, todos estes heterónimos visuais que são o Pequeno Grande Polegar... ou ele por si, está a passar uma estação e muda o que está à volta. Muda a voz se for preciso e todas as vezes em cena são diferentes, mantendo a base. Já o sabemos. Pois se as pessoas da comunidade também são diferentes e são elas que criam as coreografias com os actores profissionais.

As casas num só plano em terreno plano, iluminadas com o desenho de luz. Peito fora e quando se inicia o sofrimento desejado das dores de parto... cá está: inventaram o sofrimento para nascer alguém! Chegamos a conclusões universais nesta peça. Quando chegam essas dores a Banda do Polegar tem um som novo e o que cantam e tocam parece hoje a expectativa de um novo rei numa tribo de África. Mesmo. Juro pelo mindinho do Polegar.

África, Aguiar da Beira e o resto do mundo

Celebra-se a vida como em qualquer parte do mundo e as vozes dos populares, divididas entre homens e mulheres na mesma proporção em Aguiar da Beira, notam-se claramente como se cada um se destacasse, obrigando o elenco fixo do Trigo Limpo a mudar e a ter mais reacções, mais interacção e a demorar as falas. Parece a primeira vez que nasce este menino com cara de gaiato e rugas na fala.

Oh Larilollela é a nossa alegria, ao
alto e ao alto quanto mais acima maior é o salto. A Maria e o gato de patins no asfalto, o Gustavo entre as cenas da cama e largar o balão no espaço a acelerar na trotineta por detrás das cadeiras brancas da esplanada, que vão ser os lugares sentados do espectáculo.

"Só mais uma oh da bóina!". O pai do Polegar liberta-se eufórico e hoje existe o perigo de contaminação cénica ai ai, e isso muda o mundo para sermos todos palhaços. Que bom seria essa ameaça não nuclear se concretizar. Ser-se alegre não é coisa mortalícia meus amigos. Pico de Verão ou fim dele, onde estiver o Polegar e este enredo há-de haver gente de manga curta enquanto neva.

O Polegar na cabeça de quem trabalha

Atenção... liga a máquina o António, levanta O Polegar, isso... para a frente devagar, está bom! É assim que se trabalha. E de trabalho... abalamos à procura de trabalho em terra estranha, não foi gosto de aventura nem foi paga de promessa. Nunca o Polegar estará tão perto de quem o vê e tão longe desses que já saíram das férias para trabalhar em França, Luxemburgo e arredores do mundo, que precisa de crianças com vontade de ser história para derrubar ideias de muros e muros feitos. Hoje, quando o circo entrar e se ouvirem os espantos, há alguém que se lembra da festa que foi antes de Aguiar da Beira. Mas é hoje que a memória se volta a construir e narizes vermelhos a povoar. Diga-se... ao som mais ternurento e funk desde o começo dos nascimentos. 

Texto de Nuno Santos Cash