Em Penalva descobrimos 'Somos Todos Polegar'

Pela primeira vez de frente para o Pequeno Grande Polegar, como que pousado enquanto decorre a apresentação da aldeia de cinco habitantes, estamos no meio da multidão que arranjou tempo e interesse para deixar as duas ou três festas populares a poucos quilómetros, ou o jogo do Benfica nas televisões dos cafés. Preferiram celebrar a vida do Teatro e do Polegar.

Um pequenito tão pequenito de seis metros e tal ali sentado com o umbigo à mostra, quase como veio ao mundo em cortiça, e nas dores de parto de Estrelícia saem todos os manipuladores do boneco de cena para comentário geral: "afinal estava corcunda corcunda mas são muitos, são mais do que as mães!"

Pela primeira vez de frente para o Pequeno Grande Polegar, como que pousado enquanto decorre a apresentação da aldeia de cinco habitantes, estamos no meio da multidão que arranjou tempo e interesse para deixar as duas ou três festas populares a poucos quilómetros, ou o jogo do Benfica nas televisões dos cafés, preferindo celebrar a vida do Teatro e do Polegar.

  

O ESPANTO

Estamos espantados, a várias vozes e duas mãos apenas neste texto, pela capacidade de abstracção de tão grande figura localizando a cena apenas e só onde ela está. Ou seja, na calçada da praça central de Penalva do Castelo, numa aldeia figurada com suas personagens já aqui faladas nestas crónicas e que, com certeza, aprofundaremos, nem que seja antes de Vouzela que já aí vem. Mas também espantados porque andando com o Polegar e seu nascimento estávamos em crer, sempre, que todos perceberiam que quem ia nascer era aquele bebé ali tão indiscretamente tranquilo a um canto para entrar em cena. A democracia do Teatro de que tanto se fala deve ser isso mesmo: acharmos que conhecemos tudo e vermos outros pontos de vista, mas não os desprezarmos, andarmos antes com eles pela estrada. E juntando-os ao que se faz em cena.

  

AFINAL QUEM É POLEGAR?

Já no fim do espectáculo com a desmontagem a decorrer e a um café, uma mini ou umas águas gaseificadas de sabor, sabendo já da vitória do Benfica numa final de Verão, é a Mónica (que com o Luís vêm de Sever do Vouga até cada praça por onde andará a peça, e que é como um regresso a casa permanente onde nada é estranho e tudo se rearrranja*1).... é a Mónica então que confrontada com este espanto até ignorante diz: "Não é só o Polegar figura que nasce. Nós nascemos todos com ele, todos somos o Polegar". Se isto não é uma das coisas mais simples e belas como as casas de bonecas a la Tim Burton*2 por entre as quintas e casas senhoriais de Penalva que possa pois descrever o espectáculo, então desistimos de tentar descobri-lo a cada peça!

O Pequeno Grande Polegar é o cruzamento de Uma Criança Chamada Pinóquio e da Viagem do Elefante, isso é assumido, mas é também uma peça de teatro de rua onde a metáfora é a maior das inteligências emocionais e cerebrais e onde cada um deve viajar como bem entender. Se o Presidente de Câmara de Penalva do Castelo esteve parte da noite a guardar o material na Praça com o coreto e a Igreja, que a propósito deixou de tocar o sino às 22h00, para que a gente que nele depositou confiança, políticas à parte, seja recompensada com o sorriso absurdo e sem sentido – OS SORRISOS NÃO TÊM DE TER SENTIDO – aquando da entrada da vaca para matar fome ao pequenito tão pequenito... se o senhor Fernando e a Dona Rosa deixaram as suas vidas entre a reforma e o ter de arranjar emprego para estar nos ensaios... se as crianças que não conhecem os avós dos outros se lhes encostam aos joelhos e às bengalas sem pudor para rirem de coisas diferentes.... se os pais entram palco de calçada adentro assim que acaba o espectáculo para que os filhos sejam fotografados num dos braços ou pés do Polegar, sentindo que este mundo cénico não tem nada de cínico... bem, se tudo isso acontece é porque devemos todos deixar as televisões dos cafés em dias de taça porque o troféu deve ser outra coisa: chama-se liberdade e cada peça de teatro do Trigo Limpo tem a sua.

   

DO TEATRO E DA LIBERDADE

Certo que outras narrativas poderiam até ser mais ricas, certo que não sabemos se o pai do Polegar é Príncipe ou lenhador, certo que a história é curta, simples e linear juntando mundos paralelos à sua volta... mas certo mais certo é que existe esta frase a quem participou noutras peças com outras liberdades e vidas do Trigo Limpo: "Aqui é mais tocante, sabemos que estamos a despertar a atenção de todas as crianças que nos vêem". Fernando e Rosa In Penalva do Castelo, 5 de Agosto de 2017, mandando beijos orgulhosos aos filhos nos Açores.

Podíamos nem dizer mais nada, mas dizemos porque somos assim crianças sem filtro não mentirosas como Pinóquio mas traquinas. Contamos que pois se alvoraçaram as pessoas nas filas de cadeiras dispostas em frente aos projectores de luz, transformados em boca de cena, quando lhes chamaram desusados e que são "vila e não aldeia". Rapidamente a música e a história devolvem a gargalhada mas é bom saber que não é só a Mónica, o Luís, a Sofia, o Rúben, a Rita, o Luís Miguel, o Daniel, a Beatriz ou a Inês (SÃO MESMO MAIS DO QUE AS MÃES, TINHA RAZÃO A SENHORA DO PÚBLICO E CORRIGIREMOS O REGISTO DE NASCIMENTO EM CASO DE ERRO)... não são apenas eles manipuladores que nascem com o Polegar, é também o público. O público que se sente lá dentro da história com os personagens e que por isso não é aldeia, que por isso bate palmas quando o Pequeno Grande Polegar se põe de pé ou quando escarnece da proposta do circo que chega para levar o menino a fazer o número do canhão. Somos todos Polegar.

*1 O Luís é quem fala de um regresso a uma casa. Nunca estranha e que se arranja sempre um pouco. O Luís e a Mónica que chegam no dia do espectáculo e vivem o Teatro mas vivem das abelhas e do mel, dos chás... do que produzem

*2 Por entre uma vila que não tem Castelo como se pensa – Castelo é só a localidade – existem a Casa da Ínsua e outras mordomias em harmonia com a geografia e natureza (explicados pela Ana Cristina da Câmara Municipal de Penalva), restaurantes com gatos embalsamados e de serviço competente, existem casas de bonecas como as que como aprendemos a desenhar. O centro da vila parece uma das histórias dos livros para crianças e até o café ao lado da Praça "tem tudo"! Uma delas é a cópia, não em metáfora, da casa da Bruxa do filme Big Fish, de Tim Burton. 
   

Nuno Santos Cash