Meninos e meninas, os fazedores de gigantes fizeram a coisa mais desejada do mundo: um bebé!

A pegada do Trigo Limpo com as coisas gigantes vem de longe, de muito longe, o que andou para aqui chegar. Para chegar a isto que se pretende em O Pequeno Grande Polegar... isto de reinar e ser traquina se preciso for e ser alvo das peripécias só pela sua existência.

Os fazedores de gigantes tinham já a ideia antiga de fazer um bebé. É, ou não, a coisa mais desejada no mundo real? Ora... no mundo onírico também! De tal forma que o recém-nascido das histórias acaba por mudar o curso das coisas e levar consigo o que de melhor existe no Era uma vez, o que não quer dizer, necessariamente, que seja de faz de conta. 

O Pequeno Grande Polegar nasce do ventre do Trigo Limpo Teatro ACERT a partir do cruzamento entre um Pinóquio e um Elefante. Melhor... das duas construções cenográficas /espectáculo. Se em Uma Criança Chamada Pinóquio (2009, Imaginarius, Santa Maria da Feira) a marioneta interagia por si só, sendo o símbolo de uma infância que, cândida, doce e atrevida se passeava no meio de outros projectos e de queixo e nariz altivos, já A Viagem do Elefante incorporou a narrativa a partir de José Saramago e era, é, o espelho do humanidade e da mesquinhez numa coisa adulta com narrativa mais literária, mais densa, mais elaborada, seguindo a pegada de Saramago. Andou em digressão a Viagem do Elefante e marcou quem a fez e quem a viu. 

 

A cenografia particular

Mas a pegada do Trigo Limpo com as coisas gigantes vem de longe, de muito longe, o que andou para aqui chegar. Para chegar a isto que se pretende em O Pequeno Grande Polegar... isto de reinar e ser traquina se preciso for e ser alvo das peripécias... só pela sua existência. Os Gigantes do sopé da Montanha vêm desde o Caramulo na Expo 98, hoje na rotunda da entrada de Tondela; do Augaciar; do Transviriato; do Memoriar; Vêm da forma de criar pedaços gigantes de mundo e ser saltimbanco, porque só assim e com a comunidade faz sentido o Teatro e a rua. 

Dramaturgicamente, O Pequeno Grande Polegar é de uma simplicidade enorme, tão grande quanto a metáfora sem medo de ser metáfora deste bebé e seis metros e meio que aos olhos de seus pais, e de tão desejado, cabe na palma da mão. São eles, o casal jovem cuja mulher engravida pelas costas, os locais de uma aldeia onde vivem as pedras e a velha que fala com elas a par do velho que se lembra de tudo. O Vagalume que quer fazer estrelas por encomenda e... e olhem que são apenas estes cinco habitantes mesmo. 

 

Da metáfora ao real vai um mindinho

De um grupo de teatro no interior sem complexos acabamos por não fugir, pois claro, das alusões ou ilusões das aldeias que, como esta, com pedras ou sem pedras, com estrelas ou sem estrelas, se desertificam por decretos falados em microfones públicos com prazos de validade. Vale na peça como vale no quotidiano. Faltam crianças e parece que se descuram os sonhos. E no meio disto há a resistência de um grupo de Teatro com 40 anos que, independentemente da idade para ter juízo, perde as noites em volta dos desenhos e das ideias, das construções gigantes de acessibilidade a todas as idades, troca a vida adulta pela utopia de continuar diariamente a ter os seus actores e outros fundadores a desmontar cenários e estruturas, geringonças e teias de luz ou corda até ao fim das estrelas com o começo do sol. É quase assim e os ossos são diferentes, as peles têm rugas e o frio sente-se mais nas encostas por onde insistem em dizer: “somos o Trigo Limpo Teatro ACERT”. Mas a vontade é a mesma. Não se mudam os tempos nem as vontades, mudam-se na cena as gerações que contracenam nos espectáulos de rua e onde, anualmente a jogar em casa com a Queima do Judas, se serve o primeiro contacto com essa realidade cénica de saltimbanco, essa força de comunidade com teatro feito por muitos para muitos. 

A escala é obviamente grande porque não vale a pena sonhar em rés-do-chão. Ou se chega às nuvens por um pé de feijão ou a levitar ou não vale a pena. E não é a mania das grandezas caríssimos, se assim fosse não havia espectáculos e abraços, reencontros e a continuidade em lugares onde ainda há pessoas que desconfiam da existência de internet. Verdade verdadeira. A teia funciona, e funciona porque o poder local, desde a rede Dão Lafões até às autarquias que recebem os espectáculos fora deste eixo, faz parte da peça de rua como outra personagem que empurra as esculturas. 

E O Pequeno Grande Polegar, esse boneco enorme de cortiça, esse bebé que quer ir para o mundo das histórias no texto desta peça em digressão, continua a rota que se apresentou em formato diferente e que de apresentação para apresentação fica mais crescido, nunca deixando de ser o bebé de todos, a criança que pode ser grande ou caber na palma da mão. Os sonhos, os sonhadores e as perspectivas devem ser mesmo assim: livres.

Nuno Santos Cash

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