O Menino Cortiça não Precisa de Fogo de Artifício

A Ana já tinha visto o Polegar em Penalva do Castelo, e desde as semanas que separaram Penalva de Sátão foi fazendo perguntas. De que é feito? Porque está sentado primeiro? Porque não fala mais? E depois explica aos vizinhos e a quem passa na rua quem é e o que vai acontecer. E ele tem um nome. Ela tem 3 anos... ele... deixou de ser recém-nascido.

A rua iluminada e enfeites de festas da vila, depois de Mundão e Cavernães, depois de Travassos e as entradas com os cartazes das Autárquicas. Claro, à entrada a grande superfície comercial... seguimos uma fila de automóveis e chegamos à placa “Sátão centro” e “todas as direcções”. Uma das noites mais quentes do ano, para que fique para registo de um 19 de Agosto de 2017 e, antes de encontrar as proximidades da sede da Edilidade, onde quase sempre se fixa este “menino” que procuramos, vê-se uma série de luzes de cor intensa... parece-nos uma discoteca ou... ouve-se a voz de quase domadora da personagem da Ilda, que aniversariou um dia antes com uma guitarra eléctrica ao género western spaghetti no ritmo da voz dela. Nunca assim a tínhamos ouvido, a música, com este efeito, num conjunto de músicas que desde os arranjos tradicionais que passam da adaptação de canções do Mirandês a outras de cariz popular, têm também os efeitos de algo diferente com acordes estranhos e, desconfiamos, isqueiro moeda ou mesmo o profissional slide guitar.

Que Luz é Essa que Trazes na Peça?

Impressionante o efeito sob o desenho de luz da peça ... É o circo mas são.... Panos??? 

Das bancadas montadas o polegar tem o mesmo tamanho das mais altas, e aquilo que se vê além do que se ouve, é uma árvore. A árvore que parecia incipiente nos ensaios e no terreiro de brita e areia junto a uma escola com o Dunas bar e as festas do outro lado da rua. As festas que teriam Tony Carreira como cabeça-de-cartaz no dia seguinte. Mas meus amigos, antes de falar das seguramente mais de duas mil pessoas que assistiram ao – como se chama?, perdoem-nos o sorriso e a tentativa de graça – Pequeno Grande Polegar, temos aqui de dar conta que no Sátão o boneco deixou de ser bebé. 

Bebé não... Menino!

Aos olhos da Ana Amaro, de 3 anos... quase quase quase 4, o Polegar era o menino. Alguém com quem conversava e mexia minutos largos nas mãos, todos os dias, depois de pedir aos pais visitas ao local da peça. Isto, claro, desde que o Polegar chegou ao Sátão. A Ana já tinha visto o espectáculo em Penalva do Castelo, e desde as semanas que separaram Penalva de Sátão foi fazendo perguntas. De que é feito? Porque está sentado? Porque não fala mais? E depois explica aos vizinhos e a quem passa na rua quem é e o que vai acontecer. E ele tem um nome. Depois dos pais dizerem que era feito de cortiça, a Ana achou por bem que a palavra não estava bem dita e o menino, que cresceu de bebé, nestes dias, era o “Menino Preguiça”.

Perante a plateia que voltaríamos a falar veio ao terreiro da aldeia do Polegar dizer o presidente de Câmara de Sátão, que não houve fogo de artifício, como previsto, por causa da lei da Calamidade Pública. Pompeu José falou do privilégio de uma plateia enorme ter feito uma roda e não ter invadido nenhum dos limites e desabafou, de peito feito cheio e feliz: “esperamos não ter de estar outros 3 anos sem vir aqui”. A Ângela Bártolo, que integra o elenco dos populares com a filha Inês, confessa o mesmo e orgulha-se da mistura de idades e gerações. E sim... há quem nunca tire o nariz de palhaço... sobretudo as participantes séniores. 

Pausa para recarregar.... cenário

Entrevistas da Viseu Now, fotografias e dois ou três minutos de pausa. Depois... e a caminho de Tondela na próxima paragem – a casa de onde o Pequeno Grande Polegar foi sonhado – e sem público: 

23 h54 estão na cabeça do polegar. “Segura-te bem To Zé. Tem que tirar primeiro as cordas da cabeça para depois desenroscar sem danos”.

01h15 To Zé está dentro do camião TIR. “Primeiro carregamos os bidões de água, depois as peças do Polegar”. O To Zé é o pai do Polegar... príncipe, lenhador e claro... actor. O Pedro Sousa, Vagalume, mesmo com luvas queimou-se um pouco nas estrelas que são mesmo fogo e tinha pasta dentífrica nos dedos. Como estará agora? 

E carregam depois dos bidões as peças todas. As peças todas, uma a uma desde que recomeçaram. Estão em todos os lugares como se fosse a primeira vez. Tondela tem hoje, terça-feira, a primeira reunião às 20h30. O Menino de cortiça da Ana será o quê no próximo sábado, para lá de Polegar?

Texto de Nuno Santos Cash