O Pequeno Grande Polegar encontrou-se com o Malhadinhas em Vila Nova de Paiva

O Trigo Limpo Teatro ACERT fez em Vila Nova de Paiva o segundo espectáculo da nova vida do Polegar, depois de semanas antes ter renascido em Mangualde. Nasce e renasce em cada sábado nos lugares mais nobres das vilas e cidades por onde passa, tal como A Viagem do Elefante. Claro, vem sempre à tona a adaptação da obra de José Saramago, até porque este grupo de teatro em formato saltimbanco regressa aos locais por onde já passou e com quem já contracenou. 

 

Ao contrário de Mangualde, o terreno é em declive. Parece um coliseu, se atentarmos nas cadeiras colocadas lá em cima para ver os actores. Estamos junto ao 'Polegar, ainda à espera da sua primeira deixa. Assim que nascer tudo vai andar em torno dele. Mas é apenas um pretexto. Disseram-nos ao ouvido. O Pequeno Grande Polegar é um pretexto para juntar amadores e profissionais na Praça do Município de Vila Nova de Paiva. 

Protagonista em digressão, nas próximas semanas, na região Dão Lafões, O Pequeno Grande Polegar cresce para o elenco de espectáculo para espectáculo e suscita todo o tipo de comentários: "ah pois é, pequeno pequeno eu é que não pegava nele". Entretanto, mesmo quando começa a peça, já noite cerrada e por acaso fria para Verão, os cães de pilhas continuam a ouvir-se nas bancas e as farturas a crepitar no óleo, mas os olhos dos menores estão nas cavalitas dos adultos e os ouvidos naqueles que falam de microfone de lapela, para mais longe chegar. 

 

Ouvir Trigo Limpo e Aquilino Ribeiro 

Quem quiser pode até ouvir sem ver que entende bem a história. Propositado ou não, este teatro de rua tem a vertente de ir além do que se vê, mesmo que seja enorme o que se quer mostrar! Tal como naqueles mesmos tempos por onde passava O Malhadinhas, de Aquilino Ribeiro, se ouviam histórias ao luar, também hoje a vertente popular e de reunião nos novos terreiros proporciona tal experiência para maiores de... há os carrinhos de bebés realmente pequenos e os que dão os primeiros passos; há os de 11 anos que entram no espectáculo, para dizer um texto representativo para cada local onde é apresentado (a Misé costurou um texto sobre o Malhadinhas, ainda familiar de alguém da comunidade), e há os que cresceram a jogar Basketball na ACERT para hoje se entregarem de corpo e alma à indústria cultural que os move. 

O Trigo Limpo Teatro ACERT fez em Paiva o segundo espectáculo da nova vida do Polegar, depois de semanas antes ter renascido em Mangualde. Nasce e renasce em cada sábado nos lugares mais nobres das vilas e cidades por onde passa, tal como A Viagem do Elefante. Claro, vem sempre à tona a adaptação da obra de José Saramago, até porque este grupo de teatro em formato saltimbanco regressa aos locais por onde já passou e com quem já contracenou. 

 

Comunidade Chama Comunidade 

A Fátima, de 46 anos, minutos antes de entrar em cena, assume a sorrir o medo de caminhar descoordenada - caminhará bem que já sabemos o final - e é ela a responsável pelo regresso da Patrícia, de 32 anos, ao teatro depois da escola e depois de não ter conseguido entrar para um instituto de artes cénicas. "Fui à loja onde ela trabalha e trouxe-a". A Patrícia vai andar na escada que entra com o circo que chega à aldeia de 5 habitantes para levar o novo menino. Para quê? Para ser bala de canhão, por exemplo! A Graciete trata das coisas burocráticas e práticas. Articula com o Executivo camarário aquilo de que todos precisam. Local de maquilhagem, guarda-roupa... não esquecendo os pratos de feijoca e apresentando pessoas como a Maria José, ou Misé, já aqui referida por escrever a narrativa inicial para Vila Nova de Paiva e de quem publicaremos, neste espaço, o texto mais adiante. É a Misé que confessa: “Estava um pouco desconsolada quando vim para os ensaios porque tinha na cabeça o quanto tinha vibrado em participar numa coisa tão rica quanto A Viagem do Elefante. Mas ao longo dos dias fomos percebendo que este menino, este Pequeno Grande Polegar, depende de nós para sobreviver, crescer e partir para a terra das personagens de História, deixando os pais descansados. E aí sim, sentimos tudo. Sentimos que ao contrário do destino de Salomão, isto vai continuar bem e a nossa interacção não só é maior como é fundamental”. A Misé é repetente. E a Maria do Carmo, com 78 anos pede à filha para esperar que ainda tem de ir à fotografia de grupo e despedir-se dos colegas. Pois, também ela participou nos espectáculos do Trigo Limpo como participou a Clemência – é o primeiro nome ai então - “espere até ouvir o segundo nome”... a Clemência da Piedade, reformada depois de anos no Brasil e nos Estados Unidos. 

 

Basket, Hidroginástica e Skate... as rampas do Teatro

É todo um pretexto muito bem feito não é amigos?

Imaginem que em frente ao auditório rolam skates e patins e se fala nos seniores da Hidroginástica. E muitos vão ao apelo do teatro de rua feito ali mesmo. Os da geografia por onde passa o espectáculo e os que agora vão chegando à ACERT, não para jogar Basket, mas para fazer novos amigos e conhecer outras linguagens. O Rúben e a Rita são o caso. Falamos de parte importante da estrutura: eis o cotovelo e braço direito do Pequeno Grande Polegar. Os manipuladores...

Eis a peça onde “um homem e uma mulher procurando novo trilho com as carnes a ferver”, eis as músicas que são narrativa também a cantar “uma aldeia tão gasta e com rugas”. 

Quase duas da manhã. Os grilos e o regresso a Tondela depois da desmontagem marcam a passagem para Penalva do Castelo. Fazem-se experiências de tempo de arrumações e carregos. As mãos de trabalho têm todas a mesma idade e missão: Tratar do Polegar. Estamos em Penalva... e agora, o que é que se faz a 3 dias do espectáculo?

Nuno Santos Cash

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