O Pequeno Grande Polegar Nasceu de novo em Mangualde

Texto de Nuno Santos Cash

Sandra Santos (Actriz do Trigo Limpo Teatro ACERT) “Não tenham medo de crescer”.
Pompeu José (Actor, Director Artístico) “As escadas são essa metáfora de ser tão grandes como o boneco”.

A espécie de entrevista a estes dois actores começa dias antes de uma estreia, já na frente do edifício da Câmara de Mangualde, depois do desafio da ACERT e do Trigo Limpo em fazer um diário de bordo que vá dando conta do que é a digressão de O Pequeno Grande Polegar, espectáculo de rua que integra as comunidades locais por onde passa, reservando-lhes o papel de entrarem como personagens da peça de teatro apresentada há cerca de um ano na Feira de São Mateus, em Viseu. Na altura com o nome de Viriatinho. Que fique claro que falamos, apesar deste último diminutivo, de um boneco de cortiça de seis metros e meios de altura. 

O actor José Rui Martins para o técnico de luz e som Luís Viegas, antes de voltar ao sobe e desce dos tons e botões do ensaio geral: “Por acaso não te sobrou um casaco amigo?”. Refira-se que depois do Inferno de calor e tragédia que marcou Portugal semanas antes em Pedrogão Grande – para nos certificarmos que o registo do Teatro é isto de não esquecer -, a temperatura às 20h30 de uma quinta-feira era de 8 graus. Final de Junho, a chuva miudinha e o comércio com os queijos da serra fechado de frio, o café de esplanada semi-vazia e o som dos actores a testar o microfone de lapela aquecendo a voz e o corpo. Os figurinos de alguns fazem lembrar os anciãos de uma aldeia indígena(Pedro Sousa). Outros são tipicamente portugueses como nas aldeias isoladas mas sábias... caso da velha (Raquel Costa) que fala com as pedras que são coisas tão necessárias como o silêncio ou tão tristes por vezes como a ausência. As pedras falam aquilo que são. Sim, falam! E lembram-se do José Rui Martins e do casaco que pediu? Ele é o Caixão. “Eu quero ir ali dentro mãe”, ouve-se na peça como uma memória de uma criança que só queria estar com o pai a seguir a caixa... com os restos de alguém que já não dizia mais nada. 

E a Sandra Santos (Sandrinha) a quem preparam o penteado, vestida de branco e que é a mãe do Polegar que irá nascer. A Sandra rodeada dos voluntários de Mangualde figurantes: “Se alguém se enganar continuem, continuem não façam como no ensaio de ontem”. 

O Polegar está sentado com as pernas um pouco suspensas mas isso, pelo tamanho que tem pouco diferenciado na escala em frente à Câmara Municipal de Mangualde... isso nem se nota.

Estão todos a olhar para o boneco? Sim, mas também ouvem os populares, os tais figurantes de Mangualde, no caso, com quem o Trigo Limpo Teatro ACERT conta sempre que sai gigante de portas com os seus gigantes.

“É a noiva, é a noiva”, grita alguém das escadarias de que outros se embaraçam. Uma estrutura montada que para a Sameiro Puga, mãe da Maria de 8 anos, a passar em passo lento mesmo com o frio, iria estar lotada no dia de estreia... sábado, porque “Mangualde é ávida de espetáculos”. E acrescenta ao fim de algum tempo de conversa: “Já disse às minhas colegas no trabalho que têm de vir ver porque é genial. Eu vi o Viriatinho em Viseu”. 

O formato saltimbanco de Ser do Trigo Limpo e essa via nómada de espalhar a palavra cénica e transportar parte do cenário em si - atenção que este vai e vem em camião TIR – sempre assim foi: não só mostrar o que se faz mas fazer com quem quer ser do Teatro também. Ou seja, a raiz de Teatro Comunitário do Trigo Limpo continua e está assegurada por todas as gerações que vêm seguindo de todos os cantos os espectáculos para deles serem parte. O Luís, de Sever do Vouga, é um deles... mas essa é uma história à parte para os próximos diários.

Primeiro há que contar que o Pequeno Grande Polegar, o Polegarzinho que quer ser parte do mundo das histórias do Era uma Vez, nasceu de novo oficialmente a 1 de Julho de 2017, pelas 21h00. E lê-se Nasceu de novo porque já tinha feito a 2016 apresentações em Viseu, Alcobaça e Tondela.

Vamos contando a história aos poucos e vamos, naturalmente ao longo deste tempo de digressão, tocar todos os cenários de um espectáculo que é obviamente único pela singularidade do boneco, pelo que cruza de espectáculos anteriores como Pinóquio ou A Viagem do Elefante.... e pelo que cruza de gente que se repete e que chama e traz outro amigo também sempre. 

A Mangualde foi chegando o reencontro manipuladores de marioneta gigante, dos pés à cabeça. O reencontro de irmãos de palco. Ou o reencontro de pessoas que nunca se encontraram mas que todos os dias se cruzam sem trocar palavra. Agora vão ter de ser parceiros de cena em nome de um Polegar maior. 

Polegar...
Os nomes dos espectáculos abreviam-se pela intimidade com que actores, músicos, voluntários e toda a estrutura humana ganham com a estrutura cénica. O que se deve notar, de facto, é que a praça central de cada sítio, aldeia ou cidade imponente, é reservada ao espectáculo em toda a sua dimensão, que sendo grande desde as luzes ao formato, toca todos e estende-se àqueles que de outra maneira não entrariam provavelmente numa peça de Teatro.

No dia do espetáculo está quente, nem casaco é preciso e a Sameiro Puga estava certa. Não cabe mais assistência numa praça que brevemente poderá deixar de ter repuxos de uma fonte que tanto barulho faz entre o café e o que quer que se queira dizer a partir dos Paços do Concelho. Claro, isso somos nós a congeminar e a contar histórias embalados pelo Polegar. Pois então, se ele muda de sítio por que não podemos nós inventar que as coisas mudarão de sítio também?!

Mesmo antes das luzes apagarem ouve-se da multidão o que se ouvirá em qualquer praça com outros nomes, reconhecendo o público o palco aos seus conterrâneos: “Olha o João Bernardo!”. E outro acertando pelas vestes dos figurantes: “São os habitantes da aldeia da história eles”.

São sim senhor e é uma aldeia que tem muita gente que vai aparecendo como a directora de circo e a voz que avisa entre as músicas tradicionais de roupagem nova... e que roupagem sem medo do rock e dos adufes misturados... allez, allez, allez.... este é o cirrrrrrrrrco.... allez.
“Por falta de nascimentos, a aldeia vai desaprecer dentro de 24 horas”.

Pergunta a Maria que já tinha visto o Viriatinho: “mãe onde arranjaram tanta cortiça?”. Prometemos nós que acompanhamos a digressão por dentro e por fora neste espaço que, explicaremos de onde vem tanta cortiça. E sim, nós escrevemos como pede a Sameiro.... escrevemos aqui que “a Maria já esteve ao colo de um dos actores do Trigo Limpo no colégio dela, em Mangualde, numa outra ocasião”.

A Carlota tem pena de estar a trabalhar no café com tanto cliente porque é dia de festa e porque até queria fazer Teatro e o senhor Adelino Carvalho só quer mesmo fotografar o elenco. Abriu já a página hoje de facebook sobre Portugal e seu povo. Adelino Carvalho já fotografou de tudo, mas o Polegar é “o maior de tamanho”. Pela maneira como sorri é também dos maiores de tantas outras coisas boas.

Tudo acaba bem e em bico bico Sarrabico e ao saltarico, palmas de ritmo e a Natália sai da cabeça do Polegar. “É como uma marioneta... é preciso força mas é fácil”.

Desta nossa marioneta gigante e dos resultados de cada uma das fotografias e escritos que se fazem nas redes sociais de cada cidadão, deste inquérito que andou pela vizinhança do centro da cidade - a 4 ou 5 quilómetros – a perguntar se sabia o que haveria no sábado, a resposta era: “vem lá o boneco das histórias não é...”.

E eles estão a chegar a si. O Pequeno Grande Polegar, os manipuladores, os actores, os técnicos, as histórias e os santimbancos. Vocês serão com certeza os próximos voluntários a entrar no espectáculo e a fazer parte deste diário de bordo que vos fala da vida do Polegar... do Pequeno Grande Polegar

Nuno Santos Cash

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