O que veste o mundo à volta do menino?

Existe à volta de um boneco, que é então pretexto ou figura central uma certeza, de que o folclore e o apego à terra material são a luta contra as assimetrias da realidade. Mais. Nos dias que passam o boneco e tudo o que gira em seu torno, com a música de festa e os palcos de aldeias em vilas e cidades são, semana a semana, a ousadia de ser feliz.

Cada uma das personagens tem uma história própria e o louco é o mais são, não o mais sábio. Quem é o louco? O Vagalume. Pelo menos assim era previsto, mas nós também já andamos a falar com as estrelas. Essa é a salvação. Bem... e se até agora tínhamos visto as coisas de uma perspectiva, esta crónica que chega ao concelho de Sátão, esse que recebeu Foral em 1111, sendo por isso a vila e o município mais antigo de Portugal, vai mudar... ou reforçar o peso das raízes na história desta viagem de um menino especial.

O Polegar... o Pequeno Grande Polegar é um pretexto já aqui o escrevemos. Mas o Pequeno Grande Polegar poderia desfilar e ser espectáculo por si mesmo? O Polegar é, ou não, melhor ou não tão bom como o Elefante ou o Pinóquio? Dentro de cada um de nós existem sempre comparações com tudo e parece que não deixamos que cada coisa viva por si só, mas é bem claro que apesar dos cruzamentos referidos desde a primeira crónica do Polegar do Trigo Limpo, que renasceu em Mangualde, sabemos a diferença entre cada peça, entre cada espectáculo, entre cada figuração.

 

SÁTÃO: 32 GRAUS DE MÁXIMA, VENTO MODERADO DE NW

Existe depois aquilo que vemos e aquilo para que nasceu. Estes que qualquer terra de aldeia há-de comer já viram uma personagem de filme de ficção científica ou onda maquinal dos primeiros Mad Max a conduzir os movimentos do menino em por detrás da sua cabeça. O mesmo olhar que viu nos restantes manipuladores, atletas de um exército de um Blade Runner. Mas o que são, de facto, os figurinos dos manipuladores? São elementos neutros vestidos como bonecos de farrapos. “Porque eles brincam com o Polegar também”. Cláudia Ribeiro, que faz os figurinos e o guarda-roupa acrescenta-lhes as capas de protecção e diz-nos que Ti Lembrano tem raízes nas pernas, precisamente porque ele tem uma ligação com as árvores, “como se fosse a única maneira de se agarrar à aldeia”. Um velho com muitos velhos.

 

SÁTÃO: MOUROS VENCIDOS, SINO DEVOLVIDO, AGORA EM OURO TRANSFORMADO

A velha que fala com as pedras, iremos reparar a partir de agora, torna-se se preciso for também uma pedra quando se baixa. Um formato de concha que fala com o silêncio e a ausência – também elas figuras / personagem – com pérolas como as conchas de ostra que se abrem. Esconde duas faces, porque a figura que Raquel Costa enraíza não é, como nenhum destes que à peça pertencem, necessariamente mau ou bom. São como os humanos todos, desde um pouco de louco à desconfiança, passando até por ser mitómanos ou seres absolutamente fantásticos. O que estas figuras que envolvem o Polegar têm é, para lá da riqueza de fantasia e movimento, uma base meticulosamente pensada para resultar em cena. Importa a cor, importa a mancha de cor que se faz, importa a luz. E o genial do que envolve a criação destas personagens entre o Trigo Limpo e a figurinista - com certeza também ela parte da aldeia, situando-se a mesma por força muito em Trás-os-Montes – é a duplicidade de funções em cada peça de roupa mas, sobretudo, o que pode mudar de um momento para o outro só com um efeito de luz ou gesto diferentes.

 

SÁTÃO: CAPITAL DO MÍSCARO

Existe à volta de um boneco, que é então pretexto ou figura central uma certeza, de que o folclore e o apego à terra material são a luta contra as assimetrias da realidade. Mais. Nos dias que passam o boneco e tudo o que gira em seu torno, com a música de festa e os palcos de aldeias, vilas e cidades são, semana a semana, a ousadia de ser feliz. Obviamente a palavra e a frase tão carregada de vendilhões está exaurida, mas não proibida.

Se virem o espectáculo, seja em que vila, cidade, aldeia ou montanha for, perceberão perfeitamente que o empenho da fantasia quer transportar uma gigantesca mensagem às supostas verdades e comportamentos politicamente correctos ou incorrectos da espuma da estupidez humana, tão saída das fábulas!

Ainda existe na mãe do Polegarzito uma menina que faz tapeçaria para o filho, simbolizada pelos pedaços de cortiça. Ainda existe o afecto de não vender um filho para ambição nem para qualquer palco do estrelato, aqui representado pelo circo e seus convites. O chapéu de Estrelícia mistura a almofada de quem vai ter de repousar para o parto e as tranças das gaiatas a serem penteadas aos domingos à tarde. Ainda antes das tardes de fórmula 1 na televisão. Os domingos eram demorados como os cabelos. O seu companheiro, lenhador ou príncipe insistimos nessa nossa visão, é o resguardo do homem perante uma figura feminina que aparece mais, não deixando de ter a sua altivez e sempre disponível, embora mais fechado em si, com graça.

Sobre o povo que ajuda a dar à luz, sobre o povo e o circo, sobre a alegria a esperança contar-vos-emos amanhã, que agora estamos entre as placas de Moimenta da Beira e Sernancelhe, lembrando-nos de Vila Nova de Paiva também ao lado. Eis o Polegar no Sátão. 

Texto de Nuno Santos Cash