Olá Polegar... Estão Aqui os Nossos Olhos!

Das voltas que deu, Ai o nosso Polegar, desde que no Parque Urbano se cresceu pela primeira vez, está mais maduro e menino, mais curto de tempo de espectáculo e mais eterno dentro de quem o vê.

Quando Mia Couto viu o texto do Pequeno Grande Polegar não reconheceu o mar de raízes que lhe choviam na conversa com José Rui Martins. E então José Rui, que escreveu agarrado à terra e a cinco habitantes que, por carinho de qualquer coisa parecida com o destino acabam por amor a semear e não a ser semente, sobrevivendo à extinção do futuro... então José Rui diz-lhe: "O velho que eu sou e que tem árvores nas pernas é aquele teu marinheiro". E Mia se espantou teleconcordando.

Quando Mia Couto trocava papéis de fax com o Trigo Limpo Teatro ACERT e se entrelaçou com este grupo e cidade concelho montanha e vale, não saberia que ainda hoje, tanto tempo depois, o mar que corre nas suas mãos ainda transborda dos peitos e bocas desta gente que faz bonecos gigantes e que regressa sempre a casa.

A casa nunca perdeu gente. Ganhou-a todos os dias porque os que partiram para ser estrelas – seja a metáfora da morte a de Mia, a do Principezinho ou até do dedo que quiserem das histórias todas – estão sempre. E os que chegam? Os que chegam de há 20 anos ou de há meia dúzia de voltas de hemisférios são o Trigo Limpo em todo o seu tamanho e esplendor, na relva ou na brita, na calçada ou no linóleo.

TODAS AS PEÇAS SÃO CASA

Damas e Cavalheiros, admiradores de lendas ou veraneantes, emigrantes ou imigrantes, senhoras lindas e senhores menos abonados de pestanas, meninos e meninas... EIS DE VOLTA A TONDELA O... PEQUENO... GRANDE POLEGAR! Repitam connosco a leitura, prolongando as duas primeiras sílabas de Polegar até onde puderem por favor. EIS DE VOLTA A TONDELA O... PEQUENO... GRANDE POLEGAR! Perfeito!

Das voltas que deu, desde que no Parque Urbano se cresceu pela primeira vez, está mais maduro e menino, mais curto de tempo de espectáculo e mais eterno dentro de quem o vê. Mangualde teve a dignidade de ver o seu renascimento, correndo os riscos da dor de parto e assumindo-os. E de lá para Tondela, passando Vila Nova de Paiva, Penalva do Castelo, Vouzela e Sátão, ele foi aprendendo a caminhar de forma mais fantasiante (quando a fantasia e a elegância se casam) para iludir de forma positiva quem vê uma peça de teatro tão mínima que se torna grande aos olhos de todos os que a sentem. E na sombra das luzes do parque a Ilda – que há-de ser todas as semanas dona de circo como já sabeis – fala com os subidores de escadas e manipuladores de narizes vermelhos que com os chapéus-de-chuva sopram o mundo. "Tudo é importante. Mesmo que o público não veja o que estão a fazer com o chapéu ou ouça os vossos sons isso conta. É como o ilusionismo de um coelho na cartola. Nós não o vemos nem sabemos onde ele está primeiro, mas isso conta para o resultado da magia".

TODAS AS PESSOAS SÃO CASA

No grupo estão participantes habituais do Judas, outros que sempre se nasceram com a ACERT e com os seus trabalhos e outros ainda que, sendo da casa não tinham tempo para ser actores de figuração ou de manipulação. Todos são da casa, se pensarmos com mais anos de profundidade. Aqui estão elas e eles, com os filhos a avaliar e baterem palmas de inveja boa porque não estão em cena. Falta-lhes ter 14 anos de idade.

A mãe do Polegar vai beijar com carinho o pai do Polegar. O Pequeno vai ser Grande e vai estar em todos que pisarem o relvado e o palco de madeira. Esse, o palco dos músicos, vai estar hoje melhor do que em todos os dias do resto da vida deles neste espectáculo. Porque as vozes das canções tradicionais e dos originais que parecem tão conhecidos de todos, essas vozes têm tons diferentes sem prurido e trazem os sons todos do mundo, muito mais do que música de fundo.

O ensaio geral teve tanta gente quanta existe às vezes numa sala de teatro cheia. O ensaio geral teve testes de luz do Paulo Neto e de som do Luís Viegas. O ensaio geral não teve microfone de velho da aldeia, a que a velha que fala com pedras – entre os resmungos da personagem - se colou para que falassem cara com cara os dois sendo um. Explique-se: os microfones andam colados nas bocas dos personagens. O Vagalume não é tolinho. Vê coisas que mais ninguém vê. E o José Rui... perdão - depois da confiança do texto já o escrevemos menos formal – o Zé Rui sabe tanto disso que é nele que deposita confiança para passar esta metáfora, tão real da extinção das aldeias, da terra para o cinema. Lá andaremos mais tarde, quando o Polegar já estiver descansado no mundo das histórias... de novo. Sim, de novo, porque nunca tanto se falou dele.

TODOS OS CÉUS E TERRA SÃO CASA

Nesta peça há um rio que atravessa, uma ilha que começa, um boneco que não tropeça. Nesta peça o Jorge regressa da Holanda, os meninos das suas férias e as meninas dos seus empregos. Nesta peça há um Mia para lá do Mia Couto e para lá da Mia e outros Mia que em Tondela desaguaram por nome de seus pais e palavras do escritor.

Onde eu nasci

há mais terra que céu

tanto leito é uma benção

para mortos e sonhadores

muito antes de mim

os meus olhos

andaram a despir o mundo

E todos gritam mais logo, hoje, ou para o próximo sábado de espectáculo: Tira os Olhos Vagalume, Tira os olhos !

Nuno Santos Cash