A Viagem, o elefante e o escritor

De Lisboa a Figueira de Castelo Rodrigo, a Fundação José Saramago quer criar o Caminho de Salomão. Três dias na estrada com o Nobel da Literatura.

Revista Única - 01/08/2009 

Reportagem de Isabel Lopes (Texto) e Ana Baião (Fotos)

"Que é um acto poético, perguntou o rei, Não se sabe, meu senhor, só damos por ele quando aconteceu." Seguindo à letra o diálogo entre D. João III e o seu secretário, logo nas páginas iniciais de "A Viagem do Elefante", à partida de Lisboa nada nos autorizava a dizer se iríamos testemunhar - e participar - num acto poético. Só três dias passados, cumprido numa invulgar expedição o itinerário que José Saramago inventou para o elefante Salomão em terras portuguesas, poderia haver resposta para tal. Ponhamo-nos então em marcha pelo Caminho de Salomão.

"Aos dez dias desta conversação, ainda o sol mal apontava no horizonte, Salomão saía do cercado onde durante dois anos malvivera. A caravana era a que havia sido anunciada, o cornaca, que presidia, lá no alto, sentado nos ombros do animal, os dois homens para o ajudarem no que viesse a ser preciso, os outros que deveriam assegurar o abastecimento, o carro de bois com a dorna da água, que os acidentes do caminho constantemente faziam ir e vir de um lado a outro, e um gigantesco carregamento de fardos de forragem variada, o pelotão de cavalaria que responderia pela segurança da viagem e a chegada de todos a bom porto, e, por fim, algo de que o rei não se tinha lembrado, um carro da intendência das forças armadas puxado por duas mulas", in "A Viagem do Elefante".

Na Praça de Londres, junto à casa lisboeta do Prémio Nobel português da Literatura, catorze pessoas vão tomando lugar num miniautocarro estacionado ao abrigo do sol que já escalda nesta manhã de Junho. Os últimos a acomodar-se são José Saramago e Pilar del Río, a mulher e presidenta da fundação com o nome do escritor, entidade promotora da iniciativa - o projecto surgiu numa conversa entre Pilar e um jornalista espanhol, revela a própria, logo Saramago atalha que tal nasceu numa "empresa chamada Pilar Ideias SARL". No autocarro estão já funcionários da Fundação José Saramago, duas amigas do casal, uma equipa que realiza um documentário sobre José e Pilar, e cinco jornalistas (do Expresso, da SIC e do diário espanhol "El Mundo").

Das primeiras palavras proferidas por Pilar ao grupo, mal o veículo se põe em movimento em direcção a Belém, o ponto de partida oficial, depreende-se que acabamos de embarcar numa aventura inédita. "Vamos como pioneiros iniciar o Caminho de Salomão", é o desafio lançado, à semelhança do Caminho de Santiago ou do de D. Quixote. "Não sabemos o que vamos encontrar", avisa Pilar, mas logo o marido sentencia: "Asseguro-vos que vamos encontrar maravilhas".

Saramago sabe bem do que fala ou não fosse revisitar, trinta anos depois, locais descritos em "Viagem a Portugal" - não um guia ou modelo mas, segundo o autor, uma história, que é ainda um "desafio e convite" a um projecto próprio de viagem.

Como não há registos da viagem real, nesta rota portuguesa do elefante Salomão o escritor optou por não mencionar lugares, adensando assim nas páginas do seu último romance uma desejada aura de mistério. Apenas dois pontos são dados a conhecer no livro: o de partida e o de chegada - transformado em presente de casamento por ideia de Dona Catarina da Áustria, mulher de D. João III, ao primo Maximiliano, arquiduque da Áustria, Salomão partiu da cerca onde vivia em Belém rumo a Viena, terminando a etapa nacional em Figueira de Castelo Rodrigo, junto à fronteira com Espanha.

Capela de Nossa Senhora da Piedade, na Igreja de Santiago, em Belmonte: "Esta Pietà é a beleza em estado puro".

"O elefante gostou do que viu e fê-lo saber à companhia, embora em nenhum ponto o itinerário que escolhemos tivesse coincidido com aquele que a sua memória de elefante zelosamente guardava", assim iniciou o autor o texto de balanço sobre este périplo publicado no blogue "O Caderno de Saramago". No final, "a lição desta viagem": "Há que contar com as aldeias históricas, elas estão vivas". Ligá-las num itinerário ou rota, permitindo a sua revitalização, é a tarefa a que a Fundação José Saramago se propõe deitar mãos, explica Pilar del Río, adiantando que já foram iniciados contactos com o Governo português, designadamente com o Ministério da Cultura, e que deverão prosseguir inclusive ao nível do primeiro-ministro. Na base, uma ideia bem simples: abandonar uma espécie de exclusivo que os portugueses têm pela opção de sol e praia e partir à descoberta de outras paisagens e lugares, dos seus monumentos e tesouros. Um prazer que Saramago, à beira dos 87 anos, diz ter desde sempre - "era um grande caminheiro" -, revelando, com orgulho, o seu recorde pessoal: os cerca de 70 quilómetros do percurso Lisboa/Guincho/Lisboa feitos a pé num único dia. "Teria uns 20, 22 anos..."

“É Constância a formosa, mais formosa quando vista da outra margem, em seu magnífico anfiteatro, acasteladas as casas encosta acima até a Igreja de Nossa senhora dos Milagres, que é matriz (...)", in "Viagem a Portugal".

Se em frente ao Mosteiro dos Jerónimos Saramago nos havia pedido um "esforço de imaginação" para pensarmos no que seria aquele local no século XVI, qualquer coisa como um lamaçal cheio de moscas, onde, algures perto da água, estaria o elefante numa cerca acompanhado pelo seu cornaca, ao chegarmos a Constância pela ponte sobre o rio Zêzere parece que se desenrola à nossa frente a cena descrita por Pilar: "É inevitável Salomão ter aqui tomado banho, chafurdado, borrifado-se todo... os elefantes gostam muito de água".

Constância é a nossa primeira paragem. Mal se abre a porta do autocarro, uma lufada de ar quente faz-nos querer seguir as pisadas do elefante até um dos rios, o Zêzere ou o Tejo, que ali se reúnem num "abraço", como depois escreveu Saramago no blogue, que Camões terá visto mil vezes da janela da casa onde se crê terá vivido. Como o escritor irá comentar na sessão em sua honra na Câmara Municipal, por oposição à duríssima viagem que Salomão e acompanhantes foram obrigados a fazer séculos antes, "estamos muito mal habituados... ar condicionado, aquecimento...". Explica que foi devido ao desrespeito com que Salomão foi tratado após a sua morte (ocorrida cerca de dois anos após a chegada a Viena devido aos rigores do Inverno austríaco) que decidiu contar a história verídica deste elefante: "Depois de morrer, cortaram-lhe as patas para fazer delas bengaleiros. Isso não podia ter sido feito a um elefante que foi de Lisboa andando, atravessando os Alpes...".

A assistência emociona-se, como já havia acontecido ao ouvir uma leitura muito especial, feita pelo próprio autor, de um excerto, dedicado à terra, de "Viagem a Portugal", exemplar trazido por um dos directores da Casa de Camões e que Pilar fez chegar ao marido. Terminada a leitura, Saramago confessa que já não se recordava do que havia escrito há três décadas, mas que havia ficado feliz, não por ter dito bem de Constância mas pela maneira como o disse porque "as palavras são importantes". Um comentário que o escritor haveria de repetir nos dias seguintes.

Outro tema recorrente nesta deslocação é o das lendas em que as pessoas "tanto gostam e precisam de acreditar". Em Constância se diz que nasceu e viveu Camões, e assim tendo sido ou não, com isso não vem mal ao mundo, vai explicando Saramago - "Constância merece tanto ter o seu Camões, como cada um de nós o nosso", lê-se em "Viagem a Portugal" -, mas há sempre uma linha de fronteira: "Só não acredito numa coisa: que ele tenha salvo 'Os Lusíadas' a nadar só com uma mão... O homem já tem méritos suficientes, não é preciso inventar tanto". Visitado, após o almoço, o jardim-horto de Constância a que o poeta dá o nome, e a casa onde terá habitado, é tempo de partir para novas paragens.

"Castelo Novo é uma das mais comovedoras lembranças do viajante. Talvez um dia volte, talvez não volte nunca, talvez até evite voltar, apenas porque há experiências que não se repetem", in "Viagem a Portugal".

Voltou. E a experiência, de algum modo, repetiu-se. A terra é pequena mas nem por isso deixou de dar azo a alguma confusão que começava a irritar o escritor: parados num largo grande, com fonte onde gente se abastecia de água, Saramago insistia que aquela não era a praça dos Paços do Concelho, com um pelourinho manuelino e um chafariz ali posto por D. João V, que fazia questão de nos mostrar. "Se este fosse o largo eu teria escrito tanto?!", argumentava referindo-se à sua "Viagem" de há trinta anos. Lá veio a direcção correcta e a informação de que o minibus não tinha acesso pelas ruas estreitas e íngremes. Mas também a oferta de boleia a Saramago e demais excursionistas seniores. Junto ao pelourinho finalmente encontrado, foi tempo de ouvir novamente o Nobel ler as palavras por ele escritas há tantos anos. Faltava ainda ver outra preciosidade local, que se saiba única no país: a lagariça onde em tempos antigos foram pisadas uvas, tal como na altura um lojista explicou ao escritor. A filha e o genro, Carlos e Teresinha Bragança, saem agora ao caminho de Saramago com fotos desse encontro de há décadas. Apenas disso se fala. Quando redigimos estas linhas, descobrimos que José Pereira Duarte deixou forte impressão no escritor, pois esse encontro aparece pormenorizadamente relatado em "Viagem a Portugal": "Tem os olhos claros, é um homem sensível, que lê." Durante três dias, o casal Saramago foi anfitrião da rota que pretende venha a ser o caminho de Salomão.

Todos os locais por onde passámos estão abundantemente descritos nas páginas daquele livro. A essas impressões, Saramago juntou os seus comentários in loco: Belmonte e a Pietà - "é a beleza em estado puro e para voltar a ver alguma coisa como isto é preciso vir cá ver isto" -, as ruínas de Centum Cellas - "literalmente um enigma" - a beleza de Sortelha - "é como entrar na Idade Média" - Cidadelhe e o seu pálio do século XVIII - uma "obra de arte" zelosamente guardada pelas mulheres mais velhas da terra, que só em especiais ocasiões é mostrada a forasteiros. Ao final do dia, Figueira de Castelo Rodrigo e Castelo Rodrigo lá no alto, palco escolhido para o escritor fazer as despedidas de Salomão antes de o elefante entrar em terras espanholas rumo a Valladolid.

Na recepção no município, a leitura é agora de "A Viagem do Elefante", não pelo autor, mas pelo anfitrião, António Edmundo. "Quando, de cabeça levantada, voltemos para casa, poderemos ter a certeza de que este dia será recordado para todo o sempre, de cada um de nós se há-de dizer enquanto houver portugal, Ele esteve em figueira de castelo rodrigo." "Ele é o nosso Nobel", conclui o edil, adaptando o excerto.

Na hora da despedida, regista-se a curiosidade da coincidência: Salomão seguiu para Valladolid, Saramago também, para dar uma conferência. O escritor parte satisfeito, diz que o elefante parece ter ganho vida própria, como neste caso em que se transformou num elo de ligação capaz de criar um roteiro entre aldeias e vilas históricas do país. "Nós, os seres humanos, não somos completamente um caso perdido. E talvez possamos ser um caso encontrado." Foi tudo isto um acto poético? Não só, mas também.

In Site da Fundação José Saramago