Salomão como viagem, a nossa

Testemunho de Fernando Gomez Aguilera sobre obra literária de Saramago (JL, 5/11/08)

Estranheza e sedução, eis o que nos causa a primeira aproximação à Viagem do Elefante. Sara escreveu um relato de esquiva classificação genérica pouco importa que, no seu transbordamento taxonómico, esta forma narrativa saramaguiana seja um conto longo ou um romance curto, uma fábula singular ou mesmo um renovado exemplum que adquire toda a dimensão de uma clara homenagem à literatura, à imaginação criadora e à língua portuguesa. Também, de algum modo, à sua própria obra ou, se se prefere, por extensão, a si mesmo como escritor, isto é, como autor-narrador esse agente elocutivo e ideológico que com tanta energia e intensidade pessoal se apoderou dos seus romances. Literatura em estado puro, idioma, talento sem atavios, uma tarefa própria de virtuoso cervantino, sobre a estrutura da grande metáfora da vida: a viagem como trânsito sob as intempéries, cujo final, isento de mitologia, cristaliza na céptica e desgarrada espécie de um bengaleiro forrado com a pele dissecada das extremidades de um paquiderme sobre o qual brilhou o suor acumulado no sacrifício do caminho. Depois das aflições do oceano, da meseta e da abrupta cordilheira, nada mais fica que restos, lágrimas e olvido: uma épica da fragilidade que somos, formal e tematicamente arrancada ao tronco que Saramago vem talhando nos últimos 15 anos.

A nós, que vivemos a palavra como outro coração no nosso corpo físico e imaterial, o tecido literário de A Viagem do Elefante desperta-nos emoções fortes e gratidão, muita gratidão, pela coragem e pelo exercício de liberdade demonstrados pelo Prémio Nobel, que, sabedor da futilidade de quase tudo, defende como única lealdade do escritor a que é devida à palavra e à estrita efabulação.
Um escritor descondicionado desprogramado, conceptualizou, há já alguns anos, José Manuel Mendes que, em consequência, armado dessa consciência, se senta diante do teclado e expressa a sua fantasia e a sua devoção pela língua que ele próprio é, em que se salva e à qual salva e dignifica, contando por contar, contando até chegar à raiz do canto.
Não surpreende que o autor confesse que, não obstante as investidas impiedosas da doença e o consequente extenuamento físico, tenha disfrutado com a escrita deste livro. É compreensível e está comprovada a dimensão reparadora da escrita frente a qualquer crueldade. A Viagem do Elefante não segue uma opção literária convencional. Pode observar-se com nitidez que Saramago pôs nome de elefante à literatura e à sua própria maneira de a entender e celebrar.
Não é agora o momento de aludir à riqueza com que se constrói, talvez mais radicalmente que em qualquer outra obra sua, a instância do autor-narrador; nem sequer é o lugar para mencionar como a sua atitude e as suas fórmulas e ferramentas de escritor convergem aqui ao serviço exclusivo da arte de contar; nem como o humor irreverente, a ironia distanciadora, a compaixão, o humanismo céptico e a ternura contrabalançam a mesquinhez, os inconvenientes próprios do caminho e o desconsolo provocado pelos poderes terrenos e divinos.
Tão-pouco é a ocasião de examinar detidamente o regresso do escritor à circunstância portuguesa e a paisagens e protagonistas concretos que havia deixado de parte nas suas últimas alegorias. Mas não será excessivo, sem embargo, observar que onde poderia parecer que há pouco de Saramago, aqui se encontra todo ele, o mais relevante, a palavra descoberta, sem alardes nem arranjos, sem argumentos nem propósitos que não sejam habitar o centro da língua portuguesa e, uma vez mais, dar a sua versão heterodoxa e complementar da História a partir de ressurreições marginais imaginadas, de uma vontade humanista, de substituir a crónica pela invenção e forçar a alteração da perspectiva acomodada.
É, pois, oportuno recordar agora aquelas palavras que o celebrado romancista repetiu na altura da obtenção do Nobel e o sentimento de solidão que, em Frankfurt, o embargou nos primeiros momentos, palavras que têm que ver com a aventura do elefante Salomão e, mutatis mutandis e isso pretende este relato nada inocente das nossas próprias vidas: "As coisas maiores às vezes são as mais pequenas e as mais pequenas as maiores".
A Viagem do Elefante é um livro corajoso e polissémico, talvez a obra mais cervantina do escritor nascido na Azinhaga, embora, no fundo, pudesse constituir um ensaio implícito, uma ficção do próprio escritor sobre a sua obra e sobre a sua concepção do ofício.
Um ensaio de um romancista que costuma falar mediante alegorias e metáforas e que aqui, como nos ensinavam nas classes de retórica, ao prescindir do pedagógico termo de comparação ou alusão, se expressa mediante uma metáfora pura para defender exemplarmente a essencialidade da literatura, na sua expressão mais radical da vida e do destino humano.
Enquanto se lê a épica transeuropeia de Salomão, tem-se a sensação de participar numa espécie de ágape, de oferecimento gastronómico, para sorver e saborear palavras, talento, liberdade narrativa e uma imaginação assombrosa. Um amálgama de criatividade temperada por um perito em fornos verbais que, depois de ter frequentado todos os fogões, sabe que a única verdade culinária é a da própria condição dos ingredientes, respeitando sempre a sua natureza original: como se desta vez, a modo de tributo, só tivesse cozinhado para convidar os próprios alimentos com que tinha partilhado a sua vida e os caldos com que os regou: as palavras da língua portuguesa e o idioma da efabulação.
A literatura de Saramago comprova o pressentimento de que o homem existe pela necessidade que a vida tem de relatos, como se a respiração do mundo estivesse depositada numa plétora de narrações, tantas como as vidas e as mortes. Com a sua voz imsuperável, o grande poeta argentino Roberto Juarroz referiu-se a esse fatalismo: "Falese de Deus ou não se fale, a realidade produziu o homem porque algo nela, no seu fundo, misteriosamente, pedia histórias. Ou dito de outra maneira, parece haver no profundo do real uma exigência de narración, de iluminação, de visão e até, talvez, de argumento que os homens devem prover, haja ou não haja outro sentido. Não se trata da história vulgar, a história da historiografia, com a sua sementeira de crimes e aberrações, mas dessa ilação de factos profundos que constitui a verdadeira história da humanidade e talvez de algo mais".
A essa chamada misteriosa, extremadamente real, responde a literatura. Essa ilação secreta que reúne as linhas da intra-história e do pulsar humano individual, que cria tecidos de palavras em que reconhecemos a aflição da vida de um extraordinário animal sem futuro que como nós se chama Salomão, é a que ilumina a escrita de A Viagem do Elefante e a estende ante os olhos do leitor como uma indeclinável necessidade de leitura, de celebração e de conhecimento. Assim sucede quando a literatura, sem mais pretensão que ser literatura, se converte em expressão de vida. A partir desse momento, será já, para sempre, por obra e graça da vida dos leitores, grande literatura, destinada a fortalecer, com audácia, a experiência da liberdade humana e da expressão criadora, essa vontade lúcida que tanto ajuda a sonhar e a construir a realidade desejada.

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