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3 perguntas
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João Maria André


Num dos seus vários livros, Jogo, Corpo e Teatro, uma das reflexões centrais é sobre o tempo, essa categoria que nos define, tanto como nos assusta. É a efemeridade da cena, da representação, que faz do teatro uma linguagem tão essencial para nos compreendermos?

O tempo é a marca da finitude humana. E o teatro é, fundamentalmente, um jogo com o tempo. O jogo do teatro cria um tempo próprio, que é o tempo da intensidade cénica e que se demarca profundamente
do tempo do nosso quotidiano. Marcado por esse tempo, o
jogo do teatro é profundamente efémero. Mas quanto maior é a consciência da sua efemeridade, tanto mais, paradoxalmente, ele é vivido com a intensidade de um acontecimento irrepetível. A efemeridade do jogo da existência humana representada no teatro é vivida através do jogo das nossas emoções e do corpo que também somos, dispositivos fundamentais para a compreensão humana.


Em Março celebra-se o Dia Mundial do Teatro, celebração criada em 1961 pelo Instituto Internacional do Teatro. Numa altura em que os écrans dominam a comunicação, que papel têm o palco e a cena, os atores e o público, na nossa existência?

Os ecrãs permitem apenas uma representação gráfica de imagens, e, quando muito, a expressão eletrónica de sons gravados ou transmitidos on line. Por isso, proporcionam- nos apenas imagens virtuais, visuais ou acústicas. Se se caracterizam pela rapidez, falta-lhes calor, peso, cheiro e sabor, ou seja, falta-lhes tudo aquilo que faz com que sejamos humanos e não apenas máquinas de ver, ouvir e pensar. Falta, em última análise, a presença e tudo o que ela modula e orquestra. É por isso que na copresença inerente a um espetáculo, o significado é o efeito de um processo em desenvolvimento e não algo previamente programado, ainda que com o mais sofisticado software.


Todos os governos falam, em algum momento, de descentralização cultural, como se não houvesse cultura fora das grandes cidades. O que é que tem falhado nesta ideia?

O conceito de descentralização cultural parece arrastar consigo a ideia de um movimento de transferência do centro para a periferia. Sob esse ponto de vista, ele continua ainda prisioneiro de uma concepção centralista e colonizadora. Aquilo que se lhe opõe é o reconhecimento do carácter policêntrico das dinâmicas culturais: o todo tem infinitos centros culturais, devendo ser concebido, parafraseando os místicos, como uma esfera infinita, cujo centro está em toda a parte e a circunferência em parte nenhuma. Mas esta visão, da qual se aproxima mais a noção de desconcentração cultural, só será possível a partir de uma humildade cultural que corresponde à capacidade de relativização de qualquer expressão cultural, à recusa de todas as hegemonias, sejam elas políticas, sociais, económicas, religiosas ou comunicativas.


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2019-01-09
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