SERMÃO AOS PEIXES
Estreia 98ª Produção do Trigo Limpo Teatro ACERT FINTA'12
A quarta estreia do Trigo Limpo teatro ACERT!
Um casal de sem-abrigo dá voz ao texto do Sermão do Padre António Vieira.
“Peixes, a primeira coisa que me desedifica de vós é que vos comeis uns aos outros. Não só vos comeis uns aos outros senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.”
O “Sermão de Santo António aos peixes” foi proferido pelo Padre António Vieira em 1654 mas mantém ainda toda a actualidade. As críticas que o autor faz ao ser humano através da alegoria dos peixes é tão notável e acutilante que, infelizmente, continuam a fazer todo o sentido.
No espetáculo do Trigo Limpo teatro ACERT um casal de sem-abrigo dá voz ao texto do Sermão. Principalmente ele, uma vez que de cada vez que ela tenta falar se vê impossibilitada de o fazer.
De regresso ao mar
Nasci em Setúbal, acampei na Arrábida, trabalhei em Tróia.
Ainda na adolescência, ao mergulhar nas águas límpidas do estuário do Sado, acreditava que o estado líquido era o único estado da matéria onde era possível voar e assim, por momentos, sermos peixe. Mergulhar no azul, dizia, era também o mais próximo da fase de gestação antes do nascimento, esse momento que a memória não guarda e em que deixamos de viver no estado líquido para violentamente sermos despejados neste mundo.
Ao dormir muitas noites à borda d’água descobri também que não há silêncio junto ao mar…
A leitura de “o sermão de santo António aos peixes” (na mesa de cabeceira) foi acompanhando sempre todas as minhas reflexões sobre o mundo.
Já a trabalhar no teatro o bando construímos um espetáculo “pregação” que integrando parte do texto do sermão, alguns relatórios de um fiscal dos mercados de peixe de Lisboa, uma teoria da evolução do homem, “se os tubarões fossem homens…”, serviu para redescobrir todas as memórias relacionadas com o mar relembrando que “se queres ajudar um pobre não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar”…
Quando optei por viver no campo, desculpem, em Tondela, essas memórias acompanharam-me e voltaram a cena no espetáculo do trigo limpo teatro acert “pela boca morre o peixe”. Lá estava na abertura parte do sermão e, depois de “no alto mar” de Slawomir Mrozek, e de “se os tubarões fossem homens seriam mais amigos dos peixinhos” de Bertolt Brecht, surgiu “o aquário” de Karl Valentin.
Nas idas e vindas a Lisboa comecei a cruzar-me com um casal de sem abrigo que dorme à porta da sapataria presidente. E comecei a lembrar-me do Lamas, já na altura sem abrigo em Setúbal, que dormia nas caixas onde os pescadores arrumavam as suas artes. O Lamas que batia o ritmo na caixa de fósforos e cantava “areia da tróia” e quando olhavam para ele de maneira mais estranha atirava a matar: estás a olhar assim para mim, porquê? Também nasceste nú, também morres…”
Também me recordo de quando as mulheres que trabalhavam na fábrica entravam no autocarro e as outras mulheres, armadas em finas, comentavam: “que cheiro a peixe?!” e elas respondiam alto e em bom som: “Vale mais cheirar a peixe que cheirar a merda!”
Agora, em 2012, porque muitas destas coisas me começaram a picar o miolo, volta tudo a ser lançado para o caldeirão: sermão, memórias, aquário, casal de sem abrigo (eu e a Raquel), o Gustavo a tocar, o canto de uma rua grafitado pelo Tavares, o engenho de todos os outros que embarcaram connosco nesta aventura, alguns brinquedos velhos do Afonso e olhem: boa viagem é o que vos desejo. Pompeu José
Ficha Técnica
Texto: a partir de “Sermão de Santo António aos peixes” de Padre António Vieira e “O aquário” de Karl Valentin Conceção – Pompeu José Dramaturgia, encenação e interpretação: Pompeu José e Raquel Costa Cenografia: Zé Tavares Música: Gustavo Dinis Desenho de luz: Luís Viegas Técnico: Paulo Neto
Maiores de 12 anos Duração: 55 minutos
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