“Esperança Desmedida” entre fronteiras e resistência, em março na ACERT
Estivemos à conversa com Ruy Malheiro e Ilda Teixeira, encenador e dramaturga de “Esperança Desmedida”, espetáculo da Escola de Mulheres que será apresentado na ACERT no dia 7 de março, sábado, às 19h30. Partindo do mito de Medeia, a criação cruza travessia, exílio e resistência para interpelar o presente e questionar a normalização da indiferença.
1. Esperança Desmedida nasce do cruzamento entre mito, travessia e realidade contemporânea. Como surgiu a ideia inicial deste projeto?
[RM] Este espetáculo nasce de um convite feito à Ilda para que escrevesse um texto para ser levado à cena em 2025, ano de celebração dos 30 anos da Escola de Mulheres e de homenagem a Fernanda Lapa, quando se assinalam cinco anos da sua morte. A Ilda propôs-se partir do mito de Medeia, personagem muito cara a Fernanda Lapa, pela sua força e complexidade dramática para refletir sobre as realidades contemporâneas dos movimentos migratórios e dos refugiados.
2. A peça convoca o mito de Medeia, mas afasta-se de uma leitura clássica. O que vos interessou neste mito e de que forma ele dialoga com as atuais crises migratórias e humanitárias?
[IT] A personagem Medeia é um arquétipo com muitas camadas e é um mito anterior à escrita da tragédia de Eurípedes (...) Quis focar-me apenas na sua dimensão de estrangeira, excluída e exilada, sem pátria nem pertença como símbolo também de resistência, sofrimento e força. No texto que escrevi, Medeia caminha há milhares de anos em busca de um lugar a que possa pertencer. Junta-se no caminho aos milhares de refugiados/migrantes que, forçados a sair do seu país por causas várias relacionadas com a guerra, perseguições políticas e a fome, vagueiam de fronteira em fronteira em busca de sobrevivência e de um lugar de pertença.
6. Esperança Desmedida fala de perda, mas também de resistência. Onde reside, para vocês, a esperança que dá título ao espetáculo?
[RM] A esperança reside em todos aqueles que por motivos de força maior se veem forçados a abandonar os seus lares, países e as suas origens em busca de sobrevivência. Só uma esperança desmedida os pode mover em tal missão. (...) Por vezes, face às enormes dificuldades de cansaço, frio, fome, violência, cativeiro, eminência de morte, só é possível prosseguir quando a esperança não tem medida.
7. A peça interpela diretamente quem assiste, questionando o lugar de cada um. Que tipo de relação procuram estabelecer com o público?
[RM] O objetivo maior deste espetáculo é provocar pensamento no espectador, seja por negação e alheamento, seja por identificação e reconhecimento. Importa-me que o público não saia indiferente (...) Mas, acima de tudo, revelar a importância de não desviar o olhar ou erguer muros e fronteiras. Este não é um problema do outro, é nosso também e é essa reflexão que pretendemos provocar em quem assiste.
11. Como é, para a Escola de Mulheres, retomar ao palco da ACERT?
[RM] Para a Escola de Mulheres, voltar ao palco da ACERT é voltar a casa. Temos uma relação construída ainda com a Fernanda em vida e que se tem mantido comigo e com a Marta Lapa e que, esperamos, se mantenha por muitos mais anos e que origine muitas cumplicidades futuras.